Apostas online e ludopatia: estudo estima impacto de R$ 30,6 bilhões por ano na saúde dos brasileiros

O crescimento das apostas online no Brasil trouxe consequências que vão muito além das perdas financeiras. O que começou, para muitas pessoas, como uma forma de entretenimento acabou se transformando em um problema capaz de comprometer a saúde mental, as relações familiares e a estabilidade econômica.
Um estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) dimensionou parte desse impacto: os danos à saúde associados às apostas e aos jogos de azar podem representar aproximadamente R$ 30,6 bilhões (trinta bilhões e seiscentos milhões de reais) por ano em custos diretos e indiretos para a sociedade brasileira.
O levantamento considera consequências como depressão, perda de qualidade de vida e mortes por suicídio associadas ao jogo problemático.
O número impressiona, mas precisa ser compreendido corretamente. Não se trata de um valor efetivamente gasto pelo Sistema Único de Saúde (SUS), e sim de uma estimativa econômica dos prejuízos relacionados à saúde.
Ainda assim, os dados ajudam a revelar a dimensão de um problema que, durante muito tempo, foi tratado apenas como uma questão de comportamento individual.

Quando apostar deixa de ser diversão?
Nem toda pessoa que realiza uma aposta desenvolve dependência. O problema começa quando o jogo deixa de ser uma escolha controlada e passa a ocupar um espaço cada vez maior na rotina.
A pessoa pode começar apostando pequenas quantias, mas, depois de perder dinheiro, sente necessidade de continuar jogando para tentar recuperar o prejuízo.
Com o tempo, esse comportamento pode provocar dívidas, conflitos familiares, dificuldades no trabalho e sofrimento emocional.
Esse quadro é conhecido como transtorno do jogo, também chamado de ludopatia, e é reconhecido internacionalmente como um transtorno relacionado a comportamentos aditivos.
Entre os sinais de alerta estão a dificuldade de interromper as apostas, a necessidade de esconder os valores gastos, a utilização de recursos destinados a despesas essenciais e a insistência em jogar mesmo diante de prejuízos.
A dependência não deve ser confundida com uma simples falta de disciplina. Trata-se de uma condição que pode exigir acompanhamento profissional e apoio familiar.
O impacto das apostas na saúde pública
O estudo do IEPS, divulgado em dezembro de 2025, estimou que os prejuízos sociais associados às apostas e aos jogos de azar podem chegar a R$ 38,8 bilhões (trinta e oito bilhões e oitocentos milhões de reais) por ano.
Desse total, aproximadamente R$ 30,6 bilhões estão relacionados à dimensão da saúde.
A maior parte da estimativa considera perdas associadas a mortes por suicídio e à redução da qualidade de vida decorrente da depressão. Uma parcela menor corresponde a despesas estimadas com tratamentos médicos.
Os pesquisadores ressaltam que esses números representam associações identificadas em estudos e projeções econômicas, não sendo possível atribuir diretamente todos os casos de depressão ou suicídio às apostas.
Outro dado preocupante é o crescimento da procura por atendimento.
Segundo informações divulgadas pelo Ministério da Saúde, os atendimentos relacionados ao jogo patológico e a problemas com apostas cresceram aproximadamente 140% entre 2018 e 2025.
O aumento mostra que os efeitos do jogo problemático já são percebidos na rede pública de saúde.
O que mudou com a proibição das bets?
Em setembro de 2026, o Governo Federal editou a Medida Provisória nº 1.394, proibindo a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa em território nacional.
A medida alcançou apostas esportivas e jogos online, inclusive aqueles oferecidos por empresas sediadas no exterior para pessoas localizadas no Brasil.
As plataformas tiveram um período de transição para encerrar suas operações e devolver os valores mantidos nas contas dos apostadores.
A proibição representa uma mudança importante no tratamento jurídico dessas atividades, mas não elimina automaticamente os problemas já provocados pelo jogo.
Pessoas que desenvolveram dependência podem continuar enfrentando dificuldades financeiras, emocionais e familiares mesmo após a interrupção do acesso às plataformas.
Por isso, a prevenção e o tratamento permanecem necessários.
Como buscar ajuda para a dependência em apostas?
O SUS disponibiliza atendimento gratuito para pessoas que enfrentam problemas relacionados a jogos e apostas, incluindo apoio aos familiares.
A assistência pode começar nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) ou por meio do Meu SUS Digital.
Pelo aplicativo, é possível acessar um autoteste de identificação de comportamentos de risco e solicitar teleatendimento em saúde mental.
O questionário não substitui uma avaliação médica ou psicológica, mas pode ajudar a reconhecer sinais de que a relação com as apostas está causando prejuízos.
O atendimento remoto é gratuito e sigiloso, permitindo que a pessoa procure orientação profissional mesmo quando sente dificuldade ou constrangimento em falar sobre o assunto.
Em situações de sofrimento emocional intenso, também é possível buscar apoio pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), no telefone 188.
A ludopatia também pode ter consequências jurídicas?
Sim. Além dos impactos na saúde, o comportamento compulsivo relacionado às apostas pode provocar situações que exigem análise jurídica.
É o caso de pessoas que acumulam dívidas, comprometem recursos familiares ou questionam a atuação de plataformas que possam ter descumprido obrigações legais de proteção aos consumidores.
Entretanto, é importante esclarecer que o diagnóstico de ludopatia não gera, automaticamente, o direito de recuperar todos os valores perdidos em apostas.
A possibilidade de responsabilização de uma empresa depende das circunstâncias concretas, das regras aplicáveis à época dos fatos, das provas disponíveis e da demonstração de eventual conduta irregular.
Da mesma forma, a existência de dependência não elimina automaticamente as responsabilidades jurídicas decorrentes dos atos praticados pelo apostador.
Cada situação exige uma avaliação cuidadosa, que considere tanto a condição de saúde da pessoa quanto os aspectos legais envolvidos.
Um problema que precisa ser tratado com seriedade
Os números apresentados pelo IEPS mostram que os efeitos das apostas não ficam restritos à conta bancária de quem joga.
O problema pode atingir toda a família, comprometer relações profissionais e aumentar a necessidade de atendimento em saúde mental.
A mudança na legislação representa uma resposta ao crescimento desses riscos, mas o enfrentamento da ludopatia também depende de informação, acolhimento e acesso ao tratamento adequado.
Reconhecer os primeiros sinais de dependência e procurar ajuda são passos importantes para evitar que os prejuízos se agravem.
O BPIF Advogados Associados acompanha as discussões jurídicas relacionadas à ludopatia e à responsabilidade das plataformas de apostas, oferecendo orientação para a avaliação individualizada de situações que possam envolver violações de direitos e prejuízos juridicamente reparáveis.




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