Comando oculto para inteligência artificial em contestação gera multa a advogados
- BPIF
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A utilização da inteligência artificial no Direito exige responsabilidade, transparência e respeito às regras processuais. Uma sentença da 9ª Vara do Trabalho de São Paulo reforçou esse alerta ao condenar dois advogados por litigância de má-fé após a identificação de um comando oculto inserido em uma contestação.
A instrução tinha como objetivo interferir no funcionamento de ferramentas de inteligência artificial eventualmente utilizadas na análise do processo, direcionando o sistema para a elaboração de uma decisão de improcedência da ação.

Como o comando foi identificado?
De acordo com as informações divulgadas pelo Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região, o texto foi inserido no final da peça em fonte reduzida e na cor branca, tornando-se praticamente imperceptível durante uma leitura comum.
O conteúdo foi detectado durante o processamento do documento pelo Galileu, sistema utilizado para auxiliar na elaboração de minutas no âmbito da Justiça do Trabalho. A técnica é conhecida como prompt injection, expressão utilizada para definir a inserção de instruções destinadas a interferir no comportamento de uma ferramenta de inteligência artificial.
Por que a conduta foi considerada grave?
Na sentença, a magistrada entendeu que a inclusão dissimulada do comando violou deveres fundamentais do processo, como:
boa-fé;
cooperação;
lealdade processual;
respeito à regular prestação jurisdicional.
Segundo o entendimento adotado, a conduta representou uma tentativa deliberada de manipular o sistema para produzir um resultado previamente determinado em benefício da parte defendida.
A inteligência artificial pode ser utilizada como ferramenta de apoio, mas não como meio para interferir indevidamente na análise judicial ou comprometer a integridade do processo.
A penalidade foi aplicada aos advogados
A empresa reclamada não foi responsabilizada pela inserção do comando. A decisão considerou que a elaboração e a assinatura da contestação são atos ligados à atuação profissional dos advogados.
Por essa razão, os dois profissionais que assinaram a defesa foram condenados ao pagamento de multa correspondente a dez salários mínimos, em favor do reclamante.
Também foi determinado o envio de cópia da sentença e dos autos à Ordem dos Advogados do Brasil para análise e adoção das providências cabíveis. A decisão ainda pode ser objeto de recurso.
Inteligência artificial e responsabilidade profissional
O caso evidencia que o avanço das ferramentas de inteligência artificial também traz novas responsabilidades para os profissionais do Direito.
O uso adequado da tecnologia pode contribuir para a organização de informações, revisão de documentos e otimização de atividades. Contudo, todo conteúdo apresentado em um processo permanece sob a responsabilidade de quem o produz e assina.
Nesse cenário, alguns cuidados se tornam indispensáveis:
revisar integralmente os documentos antes do protocolo;
compreender como as ferramentas utilizadas processam os dados;
evitar comandos ocultos ou mecanismos destinados a manipular sistemas;
preservar o sigilo e a confidencialidade das informações;
utilizar a tecnologia como apoio, mantendo a supervisão humana.
A inovação deve caminhar ao lado da ética profissional e da segurança jurídica. Mais do que dominar novas ferramentas, é necessário compreender seus limites e utilizá-las de maneira compatível com os deveres que orientam a atuação jurídica.
